Por que a NASA nunca lançou uma sonda Voyager 3?
Lançadas em 1977, as sondas Voyager se tornaram os objetos criados pelo ser humano mais distantes da Terra. Quase cinco décadas depois, elas continuam enviando informações científicas mesmo já estando além da região dominada pelo Sol, em uma área conhecida como espaço interestelar. O mais impressionante é que essas espaçonaves nem sequer foram planejadas para chegar tão longe.Continua após a publicidadeOriginalmente, a missão tinha como objetivo estudar os planetas gigantes do Sistema Solar. No entanto, graças a ajustes feitos ao longo dos anos pelas equipes da NASA, as duas sondas conseguiram ampliar sua jornada e alcançar regiões nunca antes exploradas por equipamentos humanos. O sucesso acabou levantando uma dúvida: por que nunca existiu uma Voyager 3?A sonda Voyager 1 ainda mantém comunicação com a Terra, mesmo a 25 bilhões de quilômetros de distância, graças à Deep Space Network, da NASA – Créditos: NASA, ESA, and G. Bacon (STScI)Resposta está em “alinhamento planetário”A resposta começa vem lá dos anos 1960, quando o engenheiro Gary Flandro, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA, percebeu um raro alinhamento dos planetas externos. Essa configuração permitiria que espaçonaves utilizassem a gravidade dos próprios planetas como impulso natural para seguir viagem, economizando combustível e tempo. O plano recebeu o nome de “Grand Tour”, em referência às longas viagens culturais feitas por europeus no passado.A proposta inicial era extremamente ambiciosa – a NASA queria enviar quatro sondas ao espaço. Duas espaçonaves passariam por Júpiter, Saturno e Plutão, que ainda era considerado um planeta na época. O outro par seguiria para Júpiter, Urano e Netuno. Como esse alinhamento especial dos planetas acontece apenas uma vez a cada cerca de 175 anos, a oportunidade era vista como única.Representação artística da sonda Voyager 2 passando por Urano em janeiro de 1986. – Crédito: Wikimedia CommonsO problema era o custo elevado. A agência enfrentava disputas internas por financiamento, especialmente por causa do desenvolvimento do programa do Ônibus Espacial. Com isso, o projeto original acabou cancelado. Em seu lugar surgiu uma versão mais simples, chamada Mariner Júpiter-Saturno, baseada em tecnologias já utilizadas em missões anteriores da série Mariner.
Leia mais:NASA priorizou Saturno e Titã durante trajetória das sondas VoyagerMais tarde, as espaçonaves passaram a se chamar Voyager 1 e Voyager 2. A Voyager 1 ainda poderia seguir até Plutão, mas os cientistas decidiram direcioná-la para Titã, a maior lua de Saturno. O interesse era enorme porque Titã possui uma atmosfera espessa, algo raro entre as luas do Sistema Solar, e poderia oferecer pistas sobre ambientes favoráveis à vida.Embora a Voyager 1 não tenha conseguido enxergar muitos detalhes da superfície de Titã por causa da névoa densa, essa decisão influenciou futuras missões espaciais. Décadas depois, a sonda New Horizons visitaria Plutão, enquanto a missão Cassini estudaria Saturno e Titã em profundidade.Continua após a publicidadeJá a Voyager 2 aproveitou a oportunidade para continuar viagem até Urano e Netuno. Até hoje, ela foi a única espaçonave a observar esses dois gigantes gelados de perto. A próxima chance de repetir uma “Grand Tour” semelhante só deve acontecer por volta da década de 2150, embora novas missões ao Sistema Solar exterior devam surgir muito antes disso.