Jogos Vorazes da energia: país europeu resolve “pausar” data centers
Os países nórdicos são vistos como destinos ideais para grandes data centers, graças ao clima estável e à disponibilidade de energia renovável. Mas o ritmo de expansão acelerado tem levado nações a revisar a instalação dessas estruturas. A Dinamarca, por exemplo, se tornou o primeiro país nórdico a pausar novos acordos de conexão de data centers à rede elétrica.Continua após a publicidadeA decisão ocorreu após a operadora estatal de energia, Energinet, registrar uma “explosão” na demanda por capacidade. Os projetos pedem cerca de 60 GW, um volume que supera em quase nove vezes a demanda elétrica máxima no país, de 7 GW. Desses 60 GW, quase um quarto (14 GW) vem apenas de data centers.A pausa, inicialmente prevista para durar três meses, ocorre em meio à formação de um novo governo na Dinamarca e levanta dúvidas sobre o futuro da expansão desse tipo de infraestrutura no país. Autoridades e especialistas apontam que será necessário definir critérios mais rigorosos para priorizar o acesso à energia, considerando a limitação da capacidade.“Temos que ser realistas e analisar o que está realmente disponível. Não é possível simplesmente sair por aí fazendo todo tipo de acordo de conexão, porque a energia não está disponível”, afirmou Henrik Hansen, CEO da Data Center Industry Association (DDI), à CNBC. Ele também destacou a necessidade de “disciplinar um pouco mais o nosso próprio setor” e rever projetos que podem não ser viáveis.Dinamarca pode estabelecer prioridades para acesso à energiaO debate sobre prioridades tem ganhado força. Em alguns países europeus, a escolha envolve decisões estratégicas sobre o uso da energia disponível. Em alguns casos, as nações debatem entre priorizar data centers ou serviços essenciais, como hospitais.Para alguns especialistas, o momento exige uma reorganização das filas de acesso à rede elétrica. Tobias Johan Sørensen, analista do think tank Concito, defende a criação de diferentes categorias de prioridade, em vez de simplesmente excluir determinados setores.Enquanto isso, o setor privado demonstra preocupação com possíveis atrasos e incertezas. Diana Hodnett, diretora global de assuntos públicos, parcerias e desenvolvimento econômico de data centers do Google, defende que a incerteza em relação se a “pausa” durará realmente três meses gera instabilidade e faz com que as empresas analisem outros mercados. Segundo ela, decisões precisam ser rápidas para acompanhar a demanda dos clientes.
Executivos do setor dos centros de dados compartilham dessa preocupação. Pernille Hoffmann, diretora-geral da Digital Realty, empresa de serviços de data center, destacou que não havia preocupação sobre a demanda por energia na Dinamarca antes. E que a mudança de cenário pode causar a migração de investimentos para outros países.
Dinamarca recebeu pedidos de instalação de data centers que superam a capacidade do que o país pode oferecer – Imagem: hyotographics/ShutterstockBoom dos data centers tem motivo: inteligência artificialO crescimento da inteligência artificial tem sido um dos principais fatores por trás da pressão energética – sem contar outras tendências já existentes, como eletrificação e digitalização. Esse cenário não é exclusivo da Europa. Nos Estados Unidos, estados como Virgínia, Oklahoma e Maine também discutem restrições para novos data centers.Continua após a publicidadeNa Europa, apenas Países Baixos e Irlanda chegaram a adotar bloqueios totais, posteriormente flexibilizados com regras específicas. A experiência irlandesa, inclusive, é vista por alguns como modelo de regulação mais estruturada para grandes consumidores de energia.Apesar dos desafios, empresas seguem apostando na região. A Microsoft, por exemplo, planeja investir cerca de US$ 3 bilhões em capacidade de data centers na Dinamarca até 2027. Segundo a companhia, a demanda por infraestrutura digital continuará crescendo.
Vitoria Lopes Gomez
Vitoria Lopes Gomez é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e redatora do Olhar Digital.
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